Variação linguística motivada pelo aspecto histórico

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Dando continuidade às postagens de artigos voltados para a Educação, com o propósito de contribuir para o conhecimento mais profundo da nossa língua materna e, concomitantemente, para a reflexão de suas variantes, a proposta desta vez é uma abordagem, ainda que breve, acerca da variação linguística motivada pelo aspecto histórico.

Nenhuma língua é homogênea, mas constituída por variedades. Essas divisões dialetais constituem a maneira pela qual a língua diferencia-se sistemática e coerentemente, segundo fatores de tempo, espaço e nível sociocultural. Mas cabe ressaltar que, considerando-se que um mesmo falante está sujeito a diferentes formas linguísticas, segundo as circunstâncias que cercam a interação entre os interlocutores (contexto social, tipo discursivo e identidade social), não é correto restringir as variedades linguísticas a apenas determinações motivadas por esses fatores.

Sem deixar de considerar essa sujeição do falante e a possibilidade de a variação linguística ser analisada sob os aspectos cultural e comunicacional, diante desse nosso traço de identificação multiforme - a língua -, passemos às considerações sobre esse processo de mudança que ocorre gradualmente ao longo de um determinado período de tempo. Dessa forma, estar-se-á atendendo a um dos princípios da linguística - mostrar que a organização estrutural de uma língua está sujeita a variedades, que são inerentes ao fenômeno linguístico.

Esse processo, que pode ser identificado ao se comparar dois estados da língua, refere-se aos estágios de desenvolvimento da língua decorrentes de fatores históricos e permite mudanças em curso.

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Toda língua muda inevitavelmente com o passar do tempo e com o uso. Assim, alguns registros linguísticos tornam-se obsoletos e caem em desuso; outros permanecem, mas com algumas alterações. Uma variante usada por um determinado grupo de falantes passa a ser adotada por outros socioeconomicamente mais expressivos, tornando-se assim uma norma. Há de se considerar que o novo pode sobrepor-se ao antigo e vice-versa.

As mudanças acontecem quanto à pronúncia, à tendência da escrita, ao significado, sendo a modalidade escrita da língua uma forma permanente de registro.

Observemos os seguintes exemplos:

  1. Vazar: além dos significados esvaziar, desaguar, refluir, dentre outros encontrados no dicionário, é usado também com o sentido de sair furtivamente, escapar;
  2. Vossa Mercê: pronome de tratamento criado para estabelecer a comunicação com pessoas importantes (autoridades), instituindo assim distanciamento, respeito e subordinação, que, com o transcorrer do tempo, transformou-se em “você” (uma contração dessa alocução) e passou a ser usado no lugar de “tu” (segunda pessoa do caso reto);
  3. Até os anos de 1930 - “João acorda na manhan de sabbado, começa a tomar seu cafèzino, mas percebe signais de uma jibóiapromta para dar o bote. Êle pára, olha e tenta sahir tranqüilamenteda sala, sem assustal-a. Vizinhos o vêem correndo pelaauto-estrada e oferecem abrigo na egreja”; a partir de 2009 - “João acorda namanhã de sábado, começa a tomar seu cafezinho, mas percebe sinais de uma jiboiaprontapara dar o bote. Ele para, olha e tenta sair tranquilamente da sala sem assustá-la. Vizinhos o veem correndo pela autoestrada e oferecem abrigo na igreja”.

Esse processo inevitável e gradual, em que a forma antiga permanece de modo concomitante junto à nova variante, acaba consagrando o novo uso por meio da modalidade escrita.

Carlos Drummond de Andrade, ao escrever a crônica “Antigamente”, faz uma alusão a esse fator da variedade linguística. Atentemos para os vocábulos em desuso no seguinte excerto do texto desse autor:

“Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito.
Os janotas, mesmo sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio”.

A língua é dinâmica e sofre transformações através do tempo, mediante vários fatores advindos da própria sociedade.

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Nanci Aparecida de Almeida

Mestre em Linguística Aplicada