Simplesmente Ética

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Como participante ativa deste portal voltado para a Educação, não poderia inicialmente postar outro artigo cujo assunto não fosse este - ética. Frente a tempos difíceis, parece pertinente refletir sobre essa questão tão civilizacional e intrínseca à educação.

Muito se tem falado no Brasil que o homem, em diversas situações, demonstra não ter mais um referencial de inspiração e comportamento, instaurando-se assim outra crise - a falta de ética -, o que poderia desencadear um colapso social, ameaçando um modelo de interpretação do mundo que sempre regeu e explicou racionalmente o comportamento humano.

Os prováveis motivos não serão discutidos aqui, mas cabe uma pergunta: Será que a origem cultural do Brasil não favoreceu o tratamento das questões éticas e retardou a sua discussão tão importante para o mundo contemporâneo?

Sem dúvida o assunto, preso a modelos ideológicos ou religiosos, teve um baixo assentamento sob a elaboração filosófica.

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Tal ausência é explicada pela reforma pombalina, cujo fim era o de promover um processo de modernização da educação em Portugal e em suas colônias e salvar a monarquia, que levou para Portugal o conhecimento das ciências físicas e impediu o estudo das chamadas ciências morais, pois estas pareciam ameaçar a tranquilidade do absolutismo português (SALDANHA, 1998). Dessa forma, o debate ético surge como uma ameaça para a estabilidade das instituições políticas, não chegando a representar uma indagação no pensamento brasileiro durante quase toda a totalidade do século XIX.
Na década de 1930, essa doutrina comteana, turvada pelas ideias marxistas, constituiu-se em um modelo ideológico predominante na vida intelectual e política brasileira (SALDANHA, 1998).
Na década de 1980, com a crise política e cultural, esse modelo passou a ser discutido e sofreu uma transformação marcada por dois momentos determinantes: a formulação da constituição de 1988 (fator interno) e o fim do bloco soviético (fator externo). Foram momentos que geraram uma nova consciência, cujos valores, agora, correspondiam a uma sociedade democrática. O debate ético irrompe assim como uma manifestação integrante do debate público mais geral sobre o processo de democratização da sociedade.
Embora esse tempo, historicamente, não tenha quase nenhuma representação, parece que a partir daí houve uma preocupação para além de um pensamento estancado, quando se observou uma corrida ao discurso ético.
Desde 2008, a disciplina Filosofia voltou a ser obrigatória no currículo do ensino médio, com o fim de promover o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.
A ética, dentre as áreas de investigação específica da Filosofia, corresponde a um campo de estudo que trata das distinções entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, procurando identificar o meio mais adequado de ser e agir do ser humano. Para tanto, promove discussões acerca dos princípios e das regras que norteiam a vida em sociedade.
Mas não cabe apenas à escola discutir a questão ética concernente ao comportamento humano. O Estado reconhece a família como elemento organizador da sociedade e, portanto, cabe a ela, enquanto instituição primária e referencial, orientar seus filhos a ter um comportamento social ético.
Seja qual for a base que fundamente as questões e os valores éticos, faz-se necessário que família e escola trabalhem incansavelmente os princípios axiológicos.
Sem discorrer sobre as correntes filosóficas ou mergulhar na história para buscar no panorama intelectual pensadores que tomaram a ética como estudo ou a privilegiaram como ponto de discussão ou reflexão, examinemo-la como um princípio unificador, uma vez que o assunto tem caráter conceitual pluralista.
Suas definições prendem-se à condição de moralidade e à determinação de bem e mau, conforme um consenso baseado em uma estrutura que é estabelecida a partir de um contexto cultural, social e histórico. Esse consenso refere-se à necessidade de saber como proceder diante das mais variadas situações, portanto os preceitos éticos servem de parâmetro para o ser humano, variando segundo o ponto de vista histórico e dependendo de circunstâncias determinadas (MARCONDES, 2007). Esse parâmetro tornou-se iminente a partir da necessidade de uma convivência harmoniosa entre os homens.
A ética contém em si valores socialmente vigentes que se transformam em razão de uma nova feição social, permitindo a convivência e instaurando direitos e deveres. Assim, quer do ponto de reflexão filosófica ou de mediação entre os homens, é possível observar seu cunho diretivo e normativo.
Valls (2001, p. 7) entende-a “como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas”.
Vazquez (2001, p. 23) define-a como “a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade, ou seja, é a ciência de uma forma específica do comportamento humano”.
Saldanha (1998), ao fazer alusão ao termo ethos, busca na história o porquê da constante exigência sobre as ações humanas:
[T]talvez provenha, no sentido de uma origem cultural, da imagem que o homem faz de si mesmo em cada civilização – a imagem do homem inclui sua figura física, sua relação com as coisas e sua figura moral. Religião e educação moldam essa imagem moral, supervisionam comportamentos e exigem conformidade a determinadas normas (SALDANHA, 1998, p. 144).
A imagem do homem já não inclui só a sua forma física, mas também a subjetividade que o compõe. Michel Foucault, ao refletir sobre a ética, define-a como um modo de sujeição que constitui o indivíduo como sujeito de suas ações e reconhecedor de suas obrigações morais, visto que para ele o homem é produto das práticas discursivas, distinguindo assim um código moral obrigatório (ou indispensável) da verdadeira conduta.
É possível perceber que essas abordagens, mesmo abstratas, tomam a ética como um conjunto de normas e valores relacionado às ações humanas. Assim, ela tem sido uma constante na vida dos povos; e, embora suas doutrinas tenham sido reformuladas através do tempo, devido a novos discursos unificadores aos quais obedece a práxis humana, antigos conceitos (identificados como arquétipos) ainda são buscados e mantidos na contemporaneidade, o que nos leva a crer que sua base permanece legitimada.
Parece fato que nascemos com uma consciência moral e adquirimos uma necessidade social, não explícita, dos conceitos éticos. Mesmo que hoje paire uma tendência de inversão de valores morais pronta para dragar as convicções do homem, a ideia de que a ética é um ponto focal no curso da humanidade precisa ser sempre reforçado.
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Nanci Aparecida de Almeida

Mestre em Linguística Aplicada